O despertar de uma nova realidade
Desde o ano de 2000, os alunos da Faculdade de História, Direito e Serviço Social, da UNESP, campus de Franca (interior de São Paulo), realizam o trote de cunho social, liderados pelo Centro Acadêmico de Direito “Prof. André Franco Montoro, NATRA (Núcleo Agrário Terra e Raiz), NEDA (Núcleo de Estudos de Direito Alternativo) e GAPAF (Grupo de Alfabetização Prof. Paulo Freire)."
Segundo Aderbal de Oliveira Neto, estudante de direito da UNESP, a idéia de adotar o trote de cunho social, surgiu da constatação de que o trote deve carregar consigo a peculiaridade de ser uma iniciação na faculdade. Desta forma, os alunos chegaram a um concenso de que, nas programações para recepção dos calouros, devem constar atividades que os levem a refletir sobre um dos maiores problemas do país: a exclusão social.
Os objetivos
Para Aderbal, o maior objetivo do trote social é mostrar aos calouros a realidade de pessoas que vivem à margem da sociedade. É necessário haver este contato para que os alunos fiquem motivados a tentarem transformá-la. "A finalidade principal é colocar o ingressante em contato com a realidade social que o cerca, realidade esta que muitas vezes não lhe foi devidamente apresentada. O ingressante conhece, vê, pisa e sente o cheiro do mundo, da pobreza, dos excluídos e isso ajuda a “abrir a cabeça” e prepará-los para pensar de forma mais ampla e compromissada com a justiça social."
As atividades
Os alunos da UNESP / Franca têm, por costume, auxiliar assentamentos de sem-terra e agrupamentos de sem-teto. Dentre as atividades já realizadas estão: arrecadação de alimentos e distribuição; realização de dinâmica, em que calouros e visitados têm a oportunidade de falar sobre suas histórias; geralmente as dinâmicas são acompanhadas por professores da faculdade. Parte do alimento arrecadado é usado para um “almoço”, que é preparado e consumido em conjunto com os estudantes. Assim, os calouros vivenciam uma realidade completamente diferente da deles, precisando cozinhar em panelas e latas enferrujadas, pegando água de potabilidade duvidosa e comendo com os talheres que aquelas pessoas dispõem.
A organização
Para Aderbal, a resposabilidade de ser organizar um trote social é muito grande. "Antes de tudo, é preciso um preparo intelectual e um acúmulo de referencial teórico dos organizadores. As atividades precisam ser bem ponderadas: quais atividades serão positivas e negativas para o ingressante. O mundo universitário precisa ser apresentado ao calouro, de forma que ele leve um choque, mas esse choque deve apenas acordá-lo, e não afastá-lo." Além disso, há todo um trabalho de campo, que envolve organizadores e as comunidades ajudadas, para que elas percebam que não estão ganhando esmolas, mas uma pequena parte do que lhes é negado por um sistema de distribuição de renda injusto."
Outras etapas da organização envolvem o aluguel do transporte; confecção de crachás para que os alunos possam ir se conhecendo, durante as atividades; escolha do(s) professor(s) acompanhante, as dinâmicas em grupo devem ser previamente estudadas e determinadas, sua liderança cabe a alguém mais experiente, como um professor ou veterano. Para Aderbal, cada tipo de trote exige uma preparação diferente. "É muito importante passar uma imagem de organização, para que se ganhe a confiança e a credibilidade dos calouros."
Para variar, o maior problema de quem tenta realizar um trote social é a falta de recursos financeiros. Porém, Aderbal explica que este problema se resolve com uma manutenção de gastos bem organizada, em que previsões de despesas sejam feitas com bastante antecedência.
O trabalho social
A reação dos alunos, ao trote realizado com os assentados ou com os sem-teto, geralmente é de apreensão. Muitos fazem questão de afirmar que só estão indo por obrigação. Esta atitude chega ao fim, quando os calouros descem do ônibus e se deparam com a realidade destes movimentos. "Enquanto o dia vai se desenrolando, muitos mudam de atitude e, durante a dinâmica, a maioria chora. O ônibus geralmente volta silencioso. Todos estão pensativos e quando chegam, são unânimes em dizer que a experiência foi valiosíssima. Não é a toa que esse tipo de trote continua todos os anos. Nós mantemos grupos de extensão que acompanham os assentamentos e as pessoas visitadas. Isso é importantíssimo para que o trote atinja seu fim: os ingressantes devem continuar tendo contato com a realidade."
Por parte de quem recebe os benefícios do trote, as pessoas se mostram muito gratas. "Primeiro nós levamos comida, que é um elemento de sobrevivência física. Segundo porque são pessoas que se importam com sua causa e se colocam como aliados nas suas lutas. É o alimento para a dignidade, já quase desfalecida. Terceiro, porque esse tipo de trote traz esperanças aos excluídos, mostrando-lhes que vale a pena lutar por um mundo melhor e que não devem sucumbir à violência do ceticismo e da intolerância social."
A importância
Sobre a importância do trote social para o desenvolvimento profissional do aluno, Aderbal afirma: "É fundamental para a formação de um jurista, oprador de uma ciência social aplicada por natureza, o conhecimento das virtudes e misérias sociais. É necessário ver onde nasce e se desenvolve o direito, sob pena do estudante pensar que direito é sinônimo de Lei, e que os Códigos contém tudo o que se precisa saber. O direito é um fenômeno plural, que se desenvolve até mesmo onde o Estado não chega."
Aderbal considera que, geralmente, estas atividades trazem boas experiências para todos. "Os alunos aprendem que não basta dar o peixe. É necessário ensinar a pescar. Eles passam a compreender a diferença entre assistência social e assistencialismo. A assistência precisa sempre estar aliada a uma ação política de conscientização transformadora. Os alunos enxergam que é preciso lutar para mudar nossa realidade. Eles sentem o peso do compromisso por estarem cursando uma Universidade Pública, que deve se voltar para o desenvolvimento e construção de um projeto de nação.
A adesão ao trote social
Segundo Aderbal, o envolvimento do universitário com o trote social e o trabalho voluntário ainda é pouco e o que existe, se preocupa mais em dar assistencialismo sem se preocupar com a parte política do problema. "Entendo ser obrigação da Universidade dar sua contribuição para a transformação da realidade social e isso se faz através da educação socilmente compromissada. O trote social é apenas uma pequena, mas importante, parte dessa educação."